
Não bastava o fato de eu, garota da cidade
convicta e moradora de apartamentos a vida toda, morrer de medo de morar numa
casa num lugar calmo até demais, a ida do meu marido à Suécia a trabalho tinha
que acontecer. Nos dias que precederam a viagem até achei que eu tiraria de
letra já que ele aceitou instalar um sistema de segurança para que eu pudesse
ficar mais tranquila.
Só que essa tão esperada tranquilidade não
veio. Cada noite era um pouco mais escura e aterrorizante do que a noite
anterior, até que chegou a madrugada de sexta-feira.
Eu estava dormindo profundamente quando
meu marido me ligou da Suécia (pela quinta vez) e me acordou. O tom de sua voz
era inquieto e demorei a achar o sentido do que ele dizia. Finalmente consegui
entender que ele estava me perguntando se a empresa de segurança não tinha me
ligado. Quando respondi que não, ele prosseguiu me informando que o sensor de
movimento dentro de casa tinha disparado.
Foi igual tomar um banho de água gelada!
Despertei na hora diante da possibilidade de ter um intruso dentro de casa
quando eu estava sozinha e cercada no segundo andar. Com o coração na boca, não
conseguia mais acompanhar o que meu marido dizia em uma tentativa inútil de me
manter calma. Meu pavor cresceu quando percebi que nosso cachorro estava de pé
e alerta no canto do quarto, praticamente vi a minha vida passar em frente aos
meus olhos.
Subitamente ouvi a campainha e o cachorro
pôs-se a latir, meu marido dizia do outro lado da linha: “É a polícia! Vá abrir
a porta!" e eu teimava que não queria descer as escadas e ser surpreendida
pelo criminoso/serial killer/estuprador que estava lá embaixo. Dei-me por
vencida quando meu marido me avisou que se eu não abrisse a porta, eles
arrombariam.
Desci as escadas de camisola, descabelada
e petrificada. Abri a porta e dei de cara com uma policial, parecendo aquela
típica cena de filme: uniforme marrom, super séria perguntando se eu estava
sozinha. Fiz que sim com a cabeça e ela entrou, com uma lanterna e uma arma e
começou a checar a casa. Eu ia atrás, trêmula e o cachorro latia no segundo
andar.
A policial comentou que ele latiria se
houvesse alguém em casa e que ela tinha checado o perímetro e não tinha visto
nenhuma pegada ao redor da casa (sim, pegadas na neve são fáceis de
identificar). Ainda assim, na minha cabecinha medrosa, eu achava possível que
alguém pudesse ter entrado em minha casa (ETs ou tele transporte, vai
saber...), pedi que ela checasse o tão temível porão e ela atendeu prontamente:
Nada. Tudo trancado e nenhum indício da presença de ninguém.
Foi então que ela, a salvadora da pátria,
descobriu que a persiana em uma das janelas da cozinha tinha caído e acionou o
sensor. Acho que mereci, pois quem manda comprar as persianas mais vagabundas
que consegui encontrar? Me despedi dela lembrando que eu tinha pensado na noite
anterior que algo aconteceria na sexta-feira 13. Eu estava certa, só que não
encontrei nenhum Jason Vorhees, só Murphy e sua lei.