A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais (...)"


Fim de aula e eu estou parada junto à porta esperando uma amiga. De repente uma de minhas so-called colegas de classe se aproxima e pergunta:
- Você viu a Jaqueline?
- Er... Quem é Jaqueline? - eu pergunto.
- Jaqueline, uma que senta ali, escurinha também... - e aponta para meu braço para evidenciar a semelhança. Eu ignoro a sutileza do discurso e digo que não sei quem é. Não se dando por vencida, ela insiste repetindo a descrição, quase indignada - como posso não saber da tal Jaqueline? Afinal, somos "escurinhas". Finalmente, eu solto a pessoa que me habita e respondo:
- Espera, vou ligar para nossa central de escurinhos e saber se a escurinha número 7856-j já saiu de lá.
Eu, ex-condenadora das comédias românticas, ex-destestadora do clichê do romance, ex-excomungadora dos buquês de rosa, ex-enojada por apelidinhos de casal, ex-contestadora do casamento, ex-pessoa com ojeriza a futebol, agora presente-indivídua-que-anda-nas-nuvens-escolhendo-com-ele-o-anel-de-noivado.
Já para mim, esse show tem todo um significado que transcende modinhas, maneirismos, fads e afins. Foi por causa do mesmo Radiohead que assumiu o posto de banda preferida desde a aborrecência, que conheci meu namorado há quase dois anos atrás, ou talvez tenha sido o que o encorajou, em sua timidez, a falar comigo. Eu escrevi toda essa lengalenga só para afirmar que chorarei hoje como todas aquelas menininhas fanáticas - que cena!
Mas eu tenho motivos, não tenho?

Não importa o que a crítica diz sobre "O menino do pijama listrado", mesmo sendo mais um filme sobre o holocausto, ainda que alguns o considerem um tanto maniqueísta (e eu acho que quem tem somente esses argumentos, não entendeu do que se trata a película), eu achei o filme infalível quando se trata de demonstrar como os valores sociais que aprendemos no decorrer da vida tendem a modificar o que é bom em nossa essência.
Trata-se da história de um menino alemão de oito anos que durante a Segunda Guerra Mundial, se muda de Berlim para Auschwitz com sua família. O menino sabe que o pai é um alto oficial, mas não entende seu trabalho. Explorando os arredores da sua isolada casa, o menino acha os campos de concentração de judeus, e sem saber do que se trata, faz amizade com outro garotinho de sua idade.
A maestria do filme, em minha opinião, não está no roteiro, mas nas sutilezas acerca do que é feito o nosso caráter. Por esse motivo, não acho que o mesmo acabe por se perder na questão moral e clichê "bonzinho X mauzão". Triste e causador de um grande desconforto, nem precisa dizer que o filme me arrancou 98649876498317 lágrimas, né? Mas valeu a pena, para lembrar que sempre nos esquecemos do que realmente é importante.
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Igualmente dramático e, em oposição, nada bom é o filme "Sete Vidas", Seven Pounds no original. Então Will Smith fez um filminho meio legalzinho num papel dramático, lembra? "À Procura da Felicidade" era sobre aquele cara que era muito pobre, comeu o pão que o capeta amassou e no fim se deu muito bem na vida. Pois então, Willzinho achou que foi tão bem que decidiu até produzir um filme novo, com ele no papel de coitadão - coitado e gostosão. As caras de sofrimento do indivíduo são inacreditáveis e todas cercadas dos mais populares clichês já vistos. Uma porcaria elevada à sétima potência.
Eu achava que já tinha visto o suficiente no tocante a coisas bizarras, acreditava ser muito difícil me impressionar, mas o artista Tim Patch, o Pricasso (um trocadilho com a palavra prick e o nome do artista Pablo Picasso) é o primeiro a pintar quadros usando o pênis. Até aí tudo bem (er...), mas eu não consigo evitar imaginar o que mais ele tentou fazer com seu instrumento até resolver pintar. Assim, você comeria uma refeição feita por ele?
Leio para ele os meus livros preferidos e ele lê os dele para mim, para remediar a falta de tempo. Estamos lendo "A Metamorfose" do Kafka de novo - um dos meus. Os dias tem passado numa velocidade inacreditável (por que dias felizes são tão rápidos?). Estou aprendendo a me alimentar direito, não sou mais vegetariana aos poucos (é, triste...) e voltei para a academia - ele supervisiona tudo: "Academia hoje que horas, hein?" "Comeu carne já?" "Não come essa hora" "hora de dormir" e coisas assim. Eu corrijo deveres e ele estuda piano, ele cozinha e eu fotografo coisas, ele lê sobre o time dele e eu limpo, fazemos planos, pergunto sobre o nome que devo dar as fotos, ele sempre vê quando as fotos estão embaçadas, eu sempre digo que era a intenção, ele acha graça, eu adoro o riso dele, rimos um do outro, ele fecha aqueles lindos olhos e eu morro de saudade, mas daí meu corpo não aguenta e eu durmo também. O tempo em que ele está no trabalho sempre parece eterno. Chega em casa às nove, eu começo a ser feliz às oito (sim, eu plageei a raposa do Saint-Exupéry) e à meia-noite, não há ninguém mais radiante que eu no mundo. Ensino português para ele, que por sua vez, me ensina russo... frases necessárias, úteis e tento ensinar/aprender palavrões - ele diz que já sei o suficiente no quesito e que não há muita valia em aprender mais. Assistimos futebol na quarta-feira e absolutamente pasma, notei que estava me divertindo. O time dele ganhou, ele acha que eu dou sorte, eu só acho que tive muita sorte em encontrá-lo, ou ainda, ser encontrada por ele. Tenho acessos de risos por motivos bobos e ele acha fofo e engraçado, está muito bem porque acho perfeito tudo o que ele faz também. E assim os dias voam, nem sentimos o ano mudar. A vida anda assim e eu nem tenho tempo de expressar. Este post vai render um pito - "Por que não estava dormindo?", ele vai perguntar e me falar sobre a importância do sono e afins. Eu vou teimar até adormecer ouvindo a voz dele no fim do dia. Ele sempre diz que a vida está perfeita, eu concordo no escuro e acrescento que não sabia que podia ser assim. Ele sorri toda vez e arremata:"Mas assim que é."