
Esse ano eu nem tenho do que reclamar.
Agora que tenho quase 30 anos, virei esse personagem caricato desses filmes de comédia barata. Parece que quanto mais velha eu fico, mais infantil eu me torno. Os hormônios então piraram de vez, não é raro eu me pegar agindo feito louca. Rindo sozinha sem motivo ou chorando sem parar (com motivo, mas...). Ando mesmo curiosa para saber como é possível uma pessoa chorar 3 dias sem parar - Tá, eu parei pra dormir, mas no meu sonho eu também estava chorando! Mas que bela merda essa de amadurecer! Quando eu era adolescente eu me achava toda almighty, quase uma heroína, a protagonista de um filme interessantíssimo. O tempo passa e eu começo a notar que não sou mais aquela coisinha engraçadinha, estou mais para uma coisa hilária mesmo e aquele tão querido filme que eu achava estar estrelando é um puta filme B, que nem o diretor leva a sério.
Porque eu sinto que a transição está muito próxima, quase tão tangível quanto o medo de fracassar - oras, é claro que este existe, eu sou apenas humana. Porque eu tenho quase certeza que é por agora. Sei porque quase toda mudança dói, excita, atrai, revira o estômago e invade. Chega devastando com tudo que você achava confiável, como um furacão. E no fim, normalmente, você nota que foi o que poderia acontecer de melhor.
Okay. Fica sacramentado aqui o dia em que eu assumi que sou uma romântica incurável, do tipo que acha que sofrer de amor faz parte do sentir-se viva e acredita em toda aquela bobagem que a televisão ensina sobre amor que dura e afins.

Eu queria que você estivesse aqui para te contar como sou infantil, como me entrego fácil ao primeiro geniozinho que aparece, como ando apaixonada por alguém ultimamente, como choro às vezes sem motivo algum, como pequenas coisas me fazem feliz algumas outras vezes e como o tempo cura quase tudo.
Eu estou por aqui sim, mas é que só penso em campos dourados ultimamente. Se você me conhece, sabe bem o que acho do ato de escrever quando se está num estado semelhante ao meu...Passando de carro pelo local do acidente, viu cada pedaço retorcido de metal e os restos de vidro quebrado. Pequenos quadrados tal qual diamantes brilhando contra o sol. Os dois corpos estendidos já cobertos com plástico preto. A mão de um deles, descoberta, poderia ser esmagada por um carro a qualquer momento. Olhou bem aquela mão e a reconheceu.
A marca de nascença nas costas da mão parecendo o mapa da Itália. Mesma posição, mesma mão. Exatamente aquela mão que tinha beijado tantas vezes, chupado os dedos, segurado ao andar pelas ruas. A mesma maldita mão que acariciou seu cabelo, amparou suas quedas, pousou em seu pescoço, tocou seus lábios, massageou seus pés, brincou com seu umbigo, segurou seus seios, lhe puxou pela cintura, serpenteou entre suas coxas, adentrou, criou as mais intensas sensações em seu corpo e um dia lhe acenou um adeus indiferente.
Com olhos marejados, ela acenou de volta timidamente para o corpo estendido. Posicionou as únicas mãos que tinha naquele momento no volante e foi em frente.
Finalmente.
English Version
Tenho essa impressão ultimamente de que vivo em um sitcom onde, obviamente, sou a protagonista. É uma daquelas séries na qual a personagem principal sempre se dá mal, assim para ter graça. A mesma tem um quê de loser, mas é boa gente e sua vida afetiva é de um fracasso caricato, claro. Tragicômica. Não fosse assim, não haveria programa, certo?
O blog segue existindo. Insistência genuína em manter-se num local ou tempo que não volta. Palavras que deviam se entrelaçar, mas seguem escorregando umas das outras. O que era tão fácil antes, agora é tão aflitivo devido à falta da prática. Ainda assim, lá de dentro, essa vontade de tocar os olhos e mentes de outrem. De criar com papel e caneta a realidade paralela e fazer cada um acreditar que a mentira que desenho em palavras é verdadeira.